‘A Casa se desconectou do povo — que agora quer entrar.
Símbolo
da democracia, oCongresso virou alvo.
Não
pelo o que representa, mas pelo que faz no dia a dia.
Na
segunda-feira, teve a rampa e a cobertura tomadas por jovens.
Na quinta, mais de 30 mil pessoas reforçaram o coro por mudanças, exposto na frase que resume a dissonância entre o parlamento e os brasileiros:
— Não nos representam.
Na quinta, mais de 30 mil pessoas reforçaram o coro por mudanças, exposto na frase que resume a dissonância entre o parlamento e os brasileiros:
— Não nos representam.
O vigor da mobilização
atingiu também o governo, que enfrenta problemas de relação com a própria base
de apoio.
Os cartazes e faixas
erguidos em Brasília na semana que passou mostram uma
agenda diferente da observada nas votações da Câmara e
do Senado.
As ruas clamam por investimentos em educação, porém o projeto do governo Dilma Rousseff que destina os bilhões dos royalties do petróleo para qualificar ensino e pesquisa corria o risco de ser engavetado.
As ruas clamam por investimentos em educação, porém o projeto do governo Dilma Rousseff que destina os bilhões dos royalties do petróleo para qualificar ensino e pesquisa corria o risco de ser engavetado.
Já a proposta de emenda à
Constituição (PEC) 37, meio de castrar o poder de investigação criminal do Ministério Público, seria votada na próxima
quarta. Acabou adiada no grito.
— O que é prioridade no
Congresso não é a nossa prioridade — diz a estudante Amanda Lucchi.
Aos 17 anos, a adolescente
estava na multidão que subiu a rampa do prédio projetado por Oscar Niemeyer. Na
terça-feira, dia seguinte à cena histórica, parlamentares e assessores se
reuniam pelo Salão Verde da Câmara na tentativa de decifrar os motivos dos
protestos.
Contudo, no mesmo dia, a Comissão de Direitos Humanos, presidida por Marco Feliciano (PSC-SP), aprovou o polêmico projeto da “cura gay”, criticado pelos manifestantes.
Contudo, no mesmo dia, a Comissão de Direitos Humanos, presidida por Marco Feliciano (PSC-SP), aprovou o polêmico projeto da “cura gay”, criticado pelos manifestantes.
— O Congresso mostrou a
falta de conexão com os representados. Essa é a raiz da crise — diz Francisco
Carlos Teixeira da Silva, historiador da UFRJ.
O descompasso também é criticado pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), que vê o Congresso isolado em torno de interesses dos próprios parlamentares e de seus financiadores de campanha.
O descompasso também é criticado pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), que vê o Congresso isolado em torno de interesses dos próprios parlamentares e de seus financiadores de campanha.
O projeto que limita a criação
de novos partidos, concebido sob medida para reeleição da presidente, tramita
como se fosse prioridade nacional, enquanto a desoneração do transporte
coletivo é debatida há uma década, sem avanços.
— A gente discute o lobby dos empresários e os desejos do governo. Não se dá ouvido para o que realmente interessa aos brasileiros — afirma Wyllys.
Captar os anseios, em especial dos jovens, é um desafio, analisa o sociólogo Rodrigo Augusto Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Deputados e senadores nasceram e entraram na política em um mundo analógico, diferente do atual, conectado e digital.
— São os assessores que estão nas redes sociais. E existe uma dificuldade de compreender os pedidos que saem dessa plataforma — observa Prando.
Ícone dos caras-pintadas, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) admite a crise de representação. Ele incentiva o uso do mesmo mecanismo que recolocou os brasileiros nas ruas: a internet.
— A gente discute o lobby dos empresários e os desejos do governo. Não se dá ouvido para o que realmente interessa aos brasileiros — afirma Wyllys.
Captar os anseios, em especial dos jovens, é um desafio, analisa o sociólogo Rodrigo Augusto Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Deputados e senadores nasceram e entraram na política em um mundo analógico, diferente do atual, conectado e digital.
— São os assessores que estão nas redes sociais. E existe uma dificuldade de compreender os pedidos que saem dessa plataforma — observa Prando.
Ícone dos caras-pintadas, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) admite a crise de representação. Ele incentiva o uso do mesmo mecanismo que recolocou os brasileiros nas ruas: a internet.
— A participação das
pessoas na rotina do Congresso precisa ser mais direta. É preciso aproveitar
que elas estão conectadas para que ajudem a criar uma pauta mais alinhada à
realidade.
Pressionados, deputados e
senadores tentam reagir. A votação da PEC 37 foi adiada, pode ser arquivada.
Projetos focados em saúde e educação ameaçam deixar escaninhos — um ato
insuficiente, na visão do professor Teixeira.
Para o historiador, é preciso votar e rejeitar a PEC, cassar os deputados condenados no julgamento do mensalão, aprovar o marco civil da internet e o destino dos royalties para educação. As ações indicariam uma reaproximação entre Congresso e povo.
Para o historiador, é preciso votar e rejeitar a PEC, cassar os deputados condenados no julgamento do mensalão, aprovar o marco civil da internet e o destino dos royalties para educação. As ações indicariam uma reaproximação entre Congresso e povo.
Parlamentares mais
experientes concordam com a urgência de ações imediatas, como a votação dos
royalties, mas querem aproveitar o momento para promover a reforma política. Em
seu décimo mandato na Câmara, Miro Teixeira (PDT-RJ) defende a convocação de
uma Constituinte restrita às reformas política, tributária e do pacto
federativo.
— As pessoas reclamam de
impostos, da falta de representação, da falta de investimento em saúde e educação.
Toda essa discussão se concentra nessa Constituinte — afirma Miro.
Um dos decanos do
Congresso, Pedro Simon (PMDB-RS) cobra as reformas. Junto
de cinco colegas, passou a quinta-feira em vigília no plenário, enquanto a
multidão protestava em frente ao Congresso. Simon espera que as manifestações
obriguem o Legislativo a adotar uma pauta mais conectada com as necessidades do
país:
— A rua faz o que o
Congresso deveria fazer.
Frases
‘‘É preciso fazer a reforma política que está represada há tanto tempo no Congresso Nacional e proibir o financiamento privado nas campanhas eleitorais".
‘‘É preciso fazer a reforma política que está represada há tanto tempo no Congresso Nacional e proibir o financiamento privado nas campanhas eleitorais".
Luiz Henrique (PMDB-SC), senador
"O Congresso precisa
dar prioridade à votação dos royalties do petróleo para educação e à emenda que
destina 10% dos recursos da União para a saúde".
José Agripino Maia (DEM-RN), senador
José Agripino Maia (DEM-RN), senador
"Temos o dever de
chamar uma Constituinte restrita a temas como reforma política, do sistema
tributário e do pacto federativo. Sem isso, não vamos dar uma resposta ao
povo"
Miro Teixeira (PDT-RJ),
deputado federal
À ESPERA
Propostas existem, falta
decidir:
— PEC 37: o projeto, que retira do
Ministério Público o poder de investigação criminal, é rejeitado pelos
manifestantes. A proposta seria votada na próxima quarta-feira, porém a pressão
provocou o recuo.
— Royalties: enviado em regime de urgência pela presidente em maio, o projeto
que destina os royalties do petróleo para educação aguarda análise dos
parlamentares. O investimento é uma forma de assegurar o investimento de 10% do
PIB na área.
— Pauta conservadora: mesmo sob pressão das ruas,
o deputado Marco Feliciano segue na presidência da Comissão de Direitos
Humanos, que aprovou o projeto da “cura gay”.
— Transporte público: o preço da tarifa do
transporte coletivo urbano pode sofrer redução se os parlamentares aprovarem o
projeto que desonera o setor de impostos.’
Fonte: ZERO HORA
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